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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Depois de alguns meses fora, hoje estamos retornando com o GERHARD.

Nosso primeiro post no BOTECO LITERÁRIO é em homenagem as crianças mortas na Escola Municipal Tasso da Silveira no dia 07, no bairro no Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro.

Trazemos um poema do curitibano Tasso da Silveira, poeta que dá nome a Escola:



PURO CANTO

Por que cessar o meu canto:
nada há mais para eu cantar?
Só é puro e profundo o canto
quando nada há que cantar.

Que temas modula, o vento
vagando sobre o mar?
Vento é simplesmente vento
mas é simplesmente mar...

Tasso da Silveira.
In: Puro Canto. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1956, p. 83.

@GerhardOnline

Leomir Bruch

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

CLASSE PENSANTE ou CLASSE DOMINANTE?

Na última Revista Veja (Edição 17/11/2010), na seção LEITOR, uma leitora sugere que passemos uma linha para separar “o azul pensante, que faz do Brasil um país melhor” do vermelho “que pensa com o estômago”, e formemos dois países, cada um com o “governo que merece.”

Com todo respeito que a leitora merece ao emitir sua opinião, me assusta um pouco esse pensamento. Hitler também pensava assim. Nós, do sul do país, não somos CLASSE PENSANTE. Se fossemos, não teríamos tirado nossos filhos das escolas públicas e os transferido para escolas particulares, e, sim, exigido do governo uma educação melhor. Com essa atitude “não” pensante, nós, os considerados “CLASSE PENSANTE” conseguimos a proeza de piorar a educação pública, e “mediocrizar” a educação particular, que “só pensa com o bolso”.

Nesta esteira de pensamento, peço que me tirem do “azul pensante” e me incluam no “vermelho que pensa com o estômago”, mesmo residindo em Curitiba.

Nos últimos anos tenho viajado muito. Além de viagens ao exterior, como Alemanha, também estive em Salvador, Fortaleza e região, Maceió, interior de Goiás, na região de Crixás, interior de Minas, na região de Teófilo Otoni, Brasília, em várias cidades de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Algumas dessas viagens foram a passeio e outras a trabalho. Gosto muito de conversar com taxistas, garçons, atendentes de hotel, frentista em postos de gasolina, enfim, gosto de conversar com pessoas, independente de raça ou classe social.

Esse povo “que pensa com o estômago” produz muito, e com alegria. Ando pelas ruas e estradas, principalmente do Nordeste, vejo grandes plantações, vejo prosperidade. Nas cidades, vejo uma diversidade cultural riquíssima, vejo progresso, vejo vida. Sou tratada com cortesia e alegria por todos os “vermelhos”. Não sou discriminada pela minha pele branca, nem por declarar minha residência na região dominada pelo “azul pensante”.

A Presidente eleita do Brasil, Dilma Rousseff merece, no mínimo, nossa torcida, nossas orações, para que faça o governo que atenda a todos nós, os azuis e os vermelhos. Se continuarmos pensando “não votei nela, quero que ela se ferre”, estaremos trabalhando contra o patrimônio. Talvez seja confortável para alguns pensar que, se alguma coisa der errado, “BEM FEITO, NÃO VOTEI NELA”, mas para mim não é. Pensar significa, principalmente, pensar no coletivo, no todo, no bem estar social, e não no particular, no individual, no eu. Isto não é pensar. É egoísmo.

Vejo sim, a classe política por nós eleita tirar proveito do conceito de que o Norte/Nordeste nada produz, apenas se beneficia da produção do Sul/Sudeste. Grande mentira, grande engano. Têm sido plataforma de propaganda política de muitos candidatos, de que há necessidade de investimentos nas regiões menos afortunadas e que os recursos necessários teriam que ser desviados das regiões “ditas” produtoras. Mais uma gigante mentira.

Coitados de nós “classe pensante azul” se não houvesse “o vermelho que pensa com o estômago”. Teríamos que trabalhar dobrado para termos ao nosso dispor, as riquezas de que dispomos hoje. E sem a mesma diversidade cultural.

Joana Rottschaefer, Curitiba/Paraná.


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

5ª BALADA LITERÁRIA acontece esta semana em SP



Entre os dias 18 e 21 de novembro acontece em São Paulo a quinta Balada Literária. Homenageando a escritora Lygia Fagundes Telles a BALADA recebe ainda "quase uma centena de artistas, nacionais e internacionais, em mesa de debate, em mesa de bar, no palco, trocando ideias, festejando lançamentos".


Desde 2006 a BALADA LITERÁRIA organizada pelo escritor pernambucano Marcelino Freire acontece na capital paulista, se consolidando um dos mais importantes eventos literários do país.

O evento já contou com a presença de Adélia Prado, Chico César, Cristovão Tezza, David Toscana, João Gilberto Noll, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Laerte, Márcio Souza, Mario Bellatin, Mário Prata, Paulo Lins, Tony Belotto entre outros.

Além de debates e discussões a BALADA LITERÁRIA 2010 contará com a apresentação da peça "Los Críticos También Lloran", baseada na obra do chileno Roberto Bolaño e encenada por um grupo que reúne autores/atores espanhóis e venezuelanos, e a presença do escritor alemão Ulrich Peltzer, que inaugurará a parceria da BALADA LITERÁRIA com o Goethe-Institut.

Para conferir toda a programação acesse: baladaliteraria.zip.net

@GerhardOnline

Leomir Bruch

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Tropa de Elite 2": mudou a vista, mudou o ponto

Marina Silva, Folha de São Paulo (27-10-10)

Perplexidade que filme pode gerar é convite de não rendição às circunstâncias e de reencontro com nossa humanidade

No primeiro "Tropa de Elite", era o mano a mano, aquilo que a psicodinâmica chama de pedagogia de violência, a tese da eliminação do crime pela eliminação do criminoso. Em "Tropa de Elite 2", entram a política, a sociedade e os direitos humanos.

Os personagens são mais complexos e interessantes. O professor militante e o agora tenente-coronel Nascimento se estranham, mas se encontram, mesmo sem o querer, na realidade dura que os envolve, em que um é indispensável ao outro.

Quando o coronel "cai pra cima" e começa a conhecer mais a fundo a sordidez entranhada no "sistema", já fica claro que, neste filme, a polícia é coadjuvante. Agora, o assunto é política, em que se choca o ovo da serpente da violência policial e das relações espúrias entre poder de Estado e delinquência.

A escória da polícia se transforma em força auxiliar de ambições políticas e, com isso, ganha licença irrestrita para o crime. Nascimento e seus seguidores são manipulados no território que não tem mais fronteiras legais porque a lei que vale já é a da própria bandidagem.

Como enfrentar? O mano a mano revela-se inútil porque a mão que joga combustível na violência não está nas ruas, no tiroteio do dia a dia. O sistema corrupto se alimenta do objetivo de permanecer no poder a qualquer custo e essa é uma das principais chaves para a degradação da política e do próprio tecido social.

É muito bem construída a trajetória da mudança de visão de Nascimento. Só consegue fazê-lo por meio do encontro com sua própria humanidade, no sofrimento pessoal de perdas e na relação conflituosa com o filho, ao lutar para compreendê-lo e ser compreendido por ele.

Daí vem a consciência de sua impotência, de ser pequena presa numa teia incomparavelmente maior do que suas estratégias e possibilidades de reagir. A saída é radicalizar no mundo da política, é tentar atingir o cerne da armadilha.

Depressão Política

O final me deu certa depressão política. É forte, mas passa uma sensação de generalização que não é boa porque reafirma o senso comum de que se sabe qual é o exato endereço do Mal. Destoa da capacidade de lidar com a complexidade do tema, presente em todo o filme. E se perde um pouco a importantíssima cortina levantada em relação ao voto, à responsabilidade de cada cidadão.

Recebi há alguns dias um texto de Rachel de Queiroz (1910-2003), escrito em 1947 para "O Cruzeiro". Ela alertava os eleitores do valor daquilo que se entrega a maus políticos: "Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem... Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra... E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador."

A cartada radical de Nascimento é pegar o inimigo não pela força das armas, mas pela coragem de expor o sistema, trincando-o. O trânsito do primeiro para o segundo "Tropa de Elite" é o coração da discussão proposta por esse belo filme, de interpretações magníficas.

Nesse sentido, a impotência e a perplexidade que podem baixar quando a luz se acende no cinema são um convite de não rendição às circunstâncias. No limite, como aconteceu com Nascimento, todos vamos querer nos reencontrar com nossa humanidade, exigir que ela seja reconhecida.

Há sempre um ponto de retorno dado pelos indivíduos ou pela trama social, pela cultura, pela espiritualidade ou pelas instituições, entre elas a política. Que é das mais importantes, como se vê quando nos deparamos com as consequências de sua deterioração.

Marina Silva, 52, é senadora da República (PV-AC), foi candidata à Presidência da República pelo Partido Verde nesta eleição e ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula (2003-2008).
@GerhardOnline


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Presidente, vá se foder!

Por Adriana Vandoni Curvo

Não sei se é desespero ou ignorância. Pode ser pelo convívio com as más companhias, mas eu, com todo o respeito que a "Instituição" Presidente da República merece, digo ao senhor Luis Inácio que vá se foder. Quem é ele para dizer, pela segunda vez, que tem mais moral e ética "que qualquer um aqui neste país"? Tomou algumas doses a mais do que o habitual, presidente?

Esta semana eu conheci Seu Genésio, funcionário de um órgão público que tem infinitamente mais moral que o senhor, Luis Inácio.

Assim como o senhor, Seu Genésio é de origem humilde, só estudou o primeiro grau e sua esposa foi babá. Uma biografia muito parecida com a sua, com uma diferença, a integridade. Ao terminar um trabalho que lhe encomendei, perguntei a ele quanto eu o devia. Ele olhou nos meus olhos e disse:

- Olha doutora, esse é o meu trabalho. Eu ganho para fazer isso. Se eu cobrar alguma coisa da senhora eu vou estar subornando. Vou sentir como se estivesse recebendo o mensalão.

Está vendo senhor presidente, isso é integridade, moral, ética, princípios coesos. Não admito que o senhor desmereça o povo humilde e trabalhador com seu discurso ébrio.

Seu Genésio, com a mesma dificuldade da maioria do povo brasileiro, criou seus filhos. E aposto que ele acharia estranho se um dos quatro passassem a ostentar um patrimônio exorbitante, porque apesar tê-los feito estudar, ele tem consciência das dificuldades de se vencer. No entanto, Lula, seu filho recebeu mais de US$ 2.000.000,00 (dois milhões de dólares) de uma empresa de telefonia, a Telemar. E isso, apenas por ser seu filho, presidente! Apenas por isso e o senhor achou normal. Não é corrupção passiva? Isso é corrupção Luis Inácio! Não é ético nem moral! É imoral!

E o senhor acha isso normal? Presidente, sempre procurei criar os meus filhos dentro dos mesmos princípios éticos e morais com que fui criada. Sempre procurei passar para eles o sentido de cidadania e de respeito aos outros. Não posso admitir que o senhor, que deveria ser o exemplo de tudo isso por ser o representante máximo do Brasil, venha deturpar a educação que dou a eles. Como posso olhar nos olhos dos meus filhos e garantir que o trabalho compensa, que a vida íntegra é o caminho certo, cobrar o respeito às instituições, quando o Presidente da República está se embriagando da corrupção do seu governo e acha isso normal, ético e moral?

Desafio o senhor a provar que tem mais moral e ética que eu!

Quem sabe "vossa excelência" tenha perdido a noção do que seja ética e moralidade ao conviver com indivíduos inescrupulosos, como o gangster José Dirceu (seu ex-capitão), e outros companheiros de partido, não menos gangsteres, como Delúbio, Sílvio Pereira, Genoíno, entre outros.

Lula, eu acredito que o senhor não saiba nem o que seja honestidade, uma prova disso foi o episódio da carteira achada no aeroporto de Brasília. Alguém se lembra? Era início de 2004, Waldomiro Diniz estava em todas as manchetes de jornal quando Francisco Basílio Cavalcante, um faxineiro do aeroporto de Brasília, encontrou uma carteira contendo US$ 10 mil e devolveu ao dono, um turista suíço. Basílio foi recebido por esse senhor aí, que se tornou presidente da república. Na ocasião, Lula disse em rede nacional, que se alguém achasse uma carteira com dinheiro e ficasse com ela, não seria ato de desonestidade, afinal de contas, o dinheiro não tinha dono. Essa é a máxima de Lula: achado não é roubado.

O turista suíço quis recompensar o Seu Basílio lhe pagando uma dívida de energia elétrica de míseros 28 reais, mas as regras da Infraero, onde ele trabalha, não permitem que funcionários recebam presentes. E olha que a recompensa não chegava nem perto do valor da Land Rover que seu amigo ganhou de um outro "amigo".

Basílio e Genésio são a cara do povo brasileiro. A cara que Lula tentou forjar que era possuidor, mas não é. Na verdade Lula tinha essa máscara, mas ela caiu. Não podemos suportar ver essa farsa de homem tripudiar em cima na pureza do nosso povo. Lula não é a cara do brasileiro honesto, trabalhador e sofrido que representa a maioria. Um homem que para levar vantagem aceita se aliar a qualquer um e é benevolente com os que cometem crimes para benefício dele ou de seu grupo e ainda acha tudo normal! Tenha paciência! "Fernandinho Beira-Mar", guardando as devidas proporções, também acha seus crimes normais.

Desculpe-me, 'presidente', mas suas lágrimas apenas maculam a honestidade e integridade do povo brasileiro, um povo sofrido que vem sendo enganado, espoliado, achacado e roubado há anos. E é por esse povo que eu me permito dizer: Presidente, vá se foder!

Adriana Vandoni Curvo é professora de economia, consultora, especialista em Administração Pública pela FGV/RJ.

@GerhardOnline


sábado, 2 de outubro de 2010

Vote na Dilma

por Arnaldo Jabor

Se você gosta da Dilma, isso é problema seu, mas se você votar nela, isso passa a ser problema nosso...

Já passou da hora do povo despertar pra esta eminente besteira...

Vamos "tentar" mudar isso urgente!

“VOTE NA DILMA” São as promoções da Época, vote na Dilma e ganhe inteiramente grátis, um José Sarney de presente agregado ao Michel Temmer. Mas não é só isso, votando na Dilma você também leva inteiramente grátis “GRÁTIS” um Fernando Collor de presente. Não pense que a promoção termina aqui, votando na Dilma você também ganha, inteiramente grátis, um Renan Calheiros e um Jader Barbalho.

Mas atenção, se você votar na Dilma, também ganhará uma Roseana Sarney no Maranhão, uma Ideli Salvati em Santa Catarina e uma Martha Suplicí em SP.

Ligue já para a Dirceu-Shop, e ganhe este maravilhoso pacote de presente: Dilma, Collor, Sarney pai, Sarney filho, Roseana Sarney, Renan Calheiros, Jáder Barbalho, José Dirceu, Delúbio Soares, José Genoíno, e muito, muito mais, com um único voto. E tem mais, você também leva inteiramente grátis, bonequinhos do Chavez, do Evo Morales, do Fidel Castro ao lado do Raul Castro, do Ahmadinejad, do Hammas e uma foto autografada das FARC´s da Colombia.

Isso sem falar no poster inteiramente grátis dos líderes dos bandidos "Sem Terra", Pedro Stedile e José Rainha, além do Minc com uniforme de guerrilheiro e Ganhe, ainda, sem concurso, uma leva de deputados especialistas em mensalinhos e mensalões. E mais; Ganhe curso intensivo de como esconder dinheiro na cueca, na meia, na bolsa... Ministrado por Marcos Valério, José Adalberto Vieira da Silva e José Nobre Guimarães, tudo isto e muito mais...

Arnaldo Jabor

O artigo acima foi retirado do site da CNB pelo TSE, mas circula por e-mails pelo país todo pondo em reflexão o voto de cada Eleitor.


@GerhardOnline

domingo, 26 de setembro de 2010

Eleições 2010: Reta final

Nesta reta final para as Eleições do dia 03 de outubro a Gerhard vai trazes para seus leitores poemas, crônicas e textos críticos e de análise política e social, para assim levar o eleitor a uma melhor compreensão da importância do voto consciente e de seu papel como cidadão e eleitor.

Hoje começamos com um texto do poeta alemão Bertolt Brecht:

O Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht

@GerhardOnline,
Leomir Bruch

sexta-feira, 10 de setembro de 2010



Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar, in Antologia Poética, Rio de Janeiro, 1977.

@GerhardOnline

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Macunaíma

Dora Kramer, dora.kramer.com.br - O Estado de S.Paulo

Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios malfeitores, afagar violentos ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?
Depende. Um artista não poderia, sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda.
A menos que tivesse respaldo. Que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo, tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijariam os críticos, por intimidação ou desistência.

A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes, consolidada por longo tempo.

Para compor a cena, oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes, covardes diante do adversário atrevido, eivados por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e ignorantes.

O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido - abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar _ sem que ninguém se disponha ou consiga lhe pôr um paradeiro - não foi criado da noite para o dia.

Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu apenas por obra da fragilidade da oposição. É produto de uma criação coletiva.

Da tolerância de informados e bem formados que puseram atributos e instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem pudor de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do País, mas não parece se importar de lidar com gente que não tem escrúpulo de nada.

Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto no momento em que já estavam caminhando para o ostracismo. Foram todos ressuscitados e por isso são gratos.

Da ambição dos que vendem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado, sejam sindicalistas, artistas, prefeitos ou vereadores.

Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.

Do despeito dos ressentidos.

Do complexo de culpa dos mal resolvidos.

Da torpeza dos oportunistas.

Da pusilanimidade dos neutros.

Da superioridade estudada dos cínicos.

Da falsa isenção dos preguiçosos.

Da preguiça dos irresponsáveis.

Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam a corte, não fosse a permissividade geral.

Nada parece capaz de lhe impor limites. Se conseguir eleger a sucessora, vai distorcer a realidade e atuar como se presidente fosse. Se não conseguir, não deixará o próximo governo governar.

Agora, é sempre bom lembrar que só fará isso se o País deixar que faça, como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.

Recibo. O presidente Lula resolveu reagir e há três dias rebate a oposição no caso das quebra dos sigilos fiscais para negar a existência de propósitos político-eleitorais.

Ocorre que faz isso usando exclusivamente argumentos político-eleitorais. Em nenhum momento até agora o presidente se mostrou preocupado com o fato de sabe-se lá quantas pessoas terem tido seus sigilos violados e seus dados cadastrais abertos por funcionários da Receita sabe-se lá por quê.

O presidente tampouco pareceu sensibilizado com a informação do ministro da Fazenda de que os vazamentos ocorrem a mancheias.

Esses cidadãos não receberam do presidente Lula uma palavra de alento ou garantia de que seus direitos constitucionais serão preservados.

Lula só responde a Serra, só trata do assunto na dimensão eleitoral e assim confirma que o caso é de polícia, mas também é de política.

@GerhardOnline

segunda-feira, 23 de agosto de 2010



EU ESCREVI UM POEMA TRISTE

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Mario Quintana in: A Cor do Invisível

@GerhardOnline

segunda-feira, 9 de agosto de 2010



Girassóis

Há tempos sonhava, ela, com o dia que (quase) todas, elas, sonham. Já planejara o vestido branco e escolhera as rendinhas, a flor no cabelo, as fitas e as luzinhas. Mas ha mais tempos ainda, sonhara com tal dia avivado em girassóis.

Acontece que tinha, ela, ouvidos e, portanto, medos. Não dela, não nascidos nela, mas que s’engavetavam e sombreavam-lhe o peito, vindo da boca dos outros. Veio, um desses dias, nesta, a aflitiva idéia de que o dito dia depositava ao casal um peso que lhes machuca e lhes arrisca a vida leve e eterna d’amores.

Tendo como mais valiosa essa sua paixão que, inclusive, já lhe preenchera bons 4 anos, decidiu deixar dissolver ao vento a vontade do casório e viver o junto, e pronto.

Mas não, não morreu nela, nas próximas dezenas de anos as rendas, a flor de cabelo, as fitas, as luzinhas e, muito menos, os girassóis. Mas foi ela assassina do peso de não tê-lo feito. Matou devagarinho, bem devagarinho, o arrependimento de não ter vivido “o” dia.

Matou-o todos as manhãs, com os carinhos na pele daquele que disse sim.

Matou-o todas as tardes com as fitas que amarrou pela casa.

Matou-o todas as noites, com as luzinhas que pendurou nas paredes.

Matou-o todas as madrugadas, com os beijos de sim que dava na boca do homem qu’ela jurou e quis cuidar.

Matou-o toda semana, quando comprava, no fim da descida, depois do canal, quase na praia, uns girassóis que cultivava com água e sonhos realizados.

Viveu, ela, todos os dias, o dia, com vários homens, num só. Escolhia-o, casavam, embaraçavam as coisas, escolhia-o de novo e casavam. Quantas vezes quisessem, quantos lados quisessem um d’outro.

Mallu Magalhães

@GerhardOnline

segunda-feira, 2 de agosto de 2010



"Você vai me sorrir, você vai se enfeitar e vem me seduzir..." (Você vai me seguir, Chico Buarque de Hollanda)

Não que fosse impossível, mas como amar alguém que não ouve a mesma canção? Como amar alguém que não decifra o que há na música, que não entende só a melodia, que não vê a poesia na letra e se emocina? Como não perceber as possibilidades de um amor louco ou breve na canção que se descreve? Como não precisar quando a voz vibra de saudade ou de dor? Não se ama alguém que não ouve.

Não se planeja uma vida com alguém que não ouve a mesma canção, não se preocupa com a poesia, que não a entende, nem a sente, nem a perpetua. Vida sem poesia, não sobra nada, nem amor para o próximo dia. Não se ama alguém que não tenha um livro de Lya Luft, um cd do Chico ou de Maria Bethânia, um quadro na parede e um amor do passado. Aliás, não se ama alguém sem passado, sem história, sem uma saudade de alguma coisa que até quando você olha nos seus olhos sente arder. Quem tem saudade, tem alguma coisa boa que vem desde muito tempo. Não se ama alguém pronto, alguém preparado, alguém seguro de tudo. Só se ama alguém que ainda podemos ver crescer, crescer junto com o que também queremos ser.

Não se entrega um sonho nas mãos de alguém que não ouve a mesma canção, de alguém que não ocupa o teu pensamento todo, e não te retribui em dobro o gesto e o riso. Não se ama alguém que não lê jornais, que não come besteiras, que duvida no toque do telefone. Não se ama alguém que não conhece teu perfume, teu prato e teu lugar preferido. Que não percebe que teu temperamento não é teu signo, que não acredita no que você daria a vida. Não se ama alguém em quem não se confia de olhos fechados e de coração aberto.

Não se apaixone por alguém que não ouve a mesma canção, nem goste de matinês e cafeterias. Não se ama alguém que não tenha plantas em casa, não use tapete na porta de entrada e não tenha talheres de inúmeras cores. Não se ama alguém que derrete na chuva e se torra no sol. Não se ama alguém que não viaja, que não planeja, que não tenha expectativas, nem que sejam mínimas e tolas. Não se ama quem fala pouco, quem gesticula antes da palavra e que não cante junto com a música.

Não se ama quem nunca quebrou um copo, quem nunca esqueceu as chaves, quem está satisfeito com a cor da sala, quem não tem compromisso, quem perde a hora, quem joga extratos fora, quem se muda toda hora, que não tenha manias, que não acorde com o rosto amassado de manhã. Desconfie se não te olhar nos olhos, se não te der segurança no dar das mãos, se mudar de assunto no domingo de manhã e principalmente, com toda certeza, desconfie, mude, termine se não ouvir a mesma canção.

Cáh Morandi, www.umolharparasentir.blogspot.com

@GerhardOnline

domingo, 1 de agosto de 2010



Improviso Insensato - Davi Drummond

sem papel
ou guardanapo
o poeta disfarça
emudece e segue
seu caminho

deixa para
o mundo
a poesia que
ninguém fala
ninguém sabe
ninguém viu

mas todo
aquele que
ali passou
tem a certeza
de que sentiu

@gerhardonline

domingo, 25 de julho de 2010



Hoje o Boteco Literário apresenta a letra da música "É Proibido Proibir" de composição de Caetano Veloso. A música foi ícone do Movimento Tropicália, levantando a bandeira contra a censura vivida em 67 no Brasil. Confira:

É Proibido Proibir - Caetano Veloso

A mãe da virgem diz que não
E o anúncio da televisão
E estava escrito no portão
E o maestro ergueu o dedo
E além da porta
Há o porteiro, sim...

E eu digo não
E eu digo não ao não
Eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir...

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças
Livros, sim...

Cai no areal na hora adversa que Deus concede aos seus
para o intervalo em que esteja a alma imersa em sonhos
que são Deus.
Que importa o areal, a morte, a desventura, se com Deus
me guardei
É o que me sonhei, que eterno dura e esse que regressarei.

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir...

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estátuas, as estantes
As vidraças, louças
Livros, sim...

E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir...

@gerhardonline

terça-feira, 20 de julho de 2010



A Menina de Lá - João Guimarães Rosa

Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes.

Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" – e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: - "Tatu não vê a lua..." – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.

Em geral, porém, Nhinhinha, com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios. Nem parecia gostar ou desgostar especialmente de coisa ou pessoa nenhuma. Botavam para ela a comida, ela continuava sentada, o prato de folha no colo, comia logo a carne ou o ovo, os torresmos, o do que fosse mais gostoso e atraente, e ia consumindo depois o resto, feijão, angu, ou arroz, abóbora, com artística lentidão. De vê-la tão perpétua e imperturbada, a gente se assustava de repente. – "Nhinhinha, que é que você está fazendo?" – perguntava-se. E ela respondia, alongada, sorrida, moduladamente: - "Eu... to-u... fa-a-zendo". Fazia vácuos. Seria mesmo seu tanto tolinha?

Nada a intimidava. Ouvia o Pai querendo que a Mãe coasse um café forte, e comentava, se sorrindo: - "Menino pidão... Menino pidão..." Costumava também dirigir-se à Mãe desse jeito: - "Menina grande... Menina grande..." Com isso Pai e Mãe davam de zangar-se. Em vão. Nhinhinha murmurava só: - "Deixa... Deixa..." – suasibilíssima, inábil como uma flor. O mesmo dizia quando vinham chamá-la para qualquer novidade, dessas de entusiasmar adultos e crianças. Não se importava com os acontecimentos. Tranqüila, mas viçosa em saúde. Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo. Mas, o respeito que tinha por Mãe e Pai, parecia mais uma engraças espécie de tolerância. E Nhinhinha gostava de mim.

Conversávamos, agora. Ela apreciava o casacão da noite. – "Cheiinhas!" – olhava as estrelas, deléveis, sobrehumanas. Chamava-as de "estrelinhas pia-pia". Repetia: - "Tudo nascendo!" – essa sua exclamação dileta, em muitas ocasiões, com o deferir de um sorriso. E o ar. Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança. – "A gente não vê quando o vento se acaba..." Estava no quintal, vestidinha de amarelo. O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: - "Alturas de urubuir..." Não, dissera só: - "... altura de urubu não ir." O dedinho chegava quase no céu. Lembrou-se de: - "Jabuticaba de vem-mever..." Suspirava, depois: - "Eu quero ir para lá." – Aonde? – "Não sei" Aí, observou: - "O passarinho desapareceu de cantar..." De fato, o passarinho tinha estado cantando, e, no escorregar do tempo, eu pensava que não estivesse ouvindo; agora, ele se interrompera. Eu disse: - "A Avezinha." De por diante, Nhinhinha passou a chamar o sabiá de "Senhora Vizinha..." E tinha respostas mais longas: - "Eeu? Tou fazendo saudade." Outra hora falava-se de parentes já mortos, ela riu: - "Vou visitar eles..." Ralhei, dei conselhos, disse que ela estava com a lua. Olhou-me, zombaz, seus olhos muito perspectivos: - "Ele te xurugou?" Nunca mais vi Nhinhinha.

Sei, porém, que foi por aí que ela começou a fazer milagres.

Nem Mãe nem Pai acharam logo a maravilha, repentina. Mas Tiantônia. Parece que foi de manhã. Nhinhinha, só, sentada, olhando o nada diante das pessoas: - "Eu queria o sapo vir aqui" Se bem a ouviram, pensaram fosse um patranhar, o de seus disparates, de sempre. Tiantônia, por vezo, acenou-lhe com o dedo. Mas, aí, reto, aos pulinhos, o ser entrava na sala, para aos pés de Nhinhinha – e não o sapo de papo, mas uma bela rã brejeira, vinda do verduroso, a rã verdíssima. Visita dessas jamais acontecera. E ela riu: - "Está trabalhando um feitiço..." Os outros se pasmaram; silenciaram demais.

Dias depois, com o mesmo sossego: - "Eu queria uma pamonhinha de goiabada" – sussurrou; e, nem bem meia hora, chegou uma dona, de longe, que trazia os pãezinhos da goiabada enrolada na palha. Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita. Assim, quando a Mãe adoeceu de dores, que eram de nenhum remédio, não houve fazer com que Nhinhinha lhe falasse a cura. Sorria apenas, segredando seu – "Deixa... Deixa..." – não a podiam despersuadir. Mas veio vagarosa, abraçou a Mãe e a beijou , quentinha. A Mãe, que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto. Souberam que ela tinha também outros modos.

Decidiram de guardar segredo. Não viessem ali os curiosos, gente maldosa e interesseira, com escândalos. Ou os padres, o bispo, quisessem tomar conta da menina, levá-la para sério convento. Ninguém, nem os parentes de mais perto, devia saber. Também, o Pai, Tiantônia e a Mãe, nem queria versar conversas, sentiam um medo extraordinário da coisa. Achavam ilusão.

O que ao Pai, aos poucos, pegava a aborrecer, era que de tudo não se tirasse o sensato proveito. Veio a seca, maior, até o brejo ameaçava se estorricar. Experimentaram pedir a Nhinhinha: que quisesse a chuva. – "Mas, não pode, ué..." – ela sacudiu a cabecinha. Instaram-na: que, se não, se acabava tudo, o leito, o arroz, a carne, os doces, frutas, o melado. – "Deixa... Deixa..." – se sorria, repousada, chegou a fechar os olhos, ao insistirem, no súbito adormecer das andorinhas.

Daí a duas manhãs quis: queria o arco-íris. Choveu. E logo aparecia o arco-da-velha, sobressaído em verde e o vermelho – que era mais um vivo cor-de-rosa. Nhinhinha se alegrou, fora do sério, à tarde do dia, com a refrescação. Fez o que nunca lhe vira, pular e correr por casa e quintal.

- "Adivinhou passarinho verde?" – Pai e Mãe se perguntavam. Esses, os passarinhos, cantavam, deputados de um reino. Mas houve que, a certo momento, Tiantônia repreendesse a menina, muito brava, muito forte, sem usos, até a Mãe e o Pai não entenderam aquilo, não gostaram. E Nhinhinha, branda, tornou a ficar sentadinha, inalterada que nem se sonhasse, ainda mais imóvel, com seu passarinho-verde pensamento. Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.

E, vai, Nhinhinha adoeceu e morreu. Diz-se que da má água desses ares. Todos os vivos atos se passam longe demais.

Desabado aquele feito, houve muitas diversas dores, de todos, dos de casa: um de-repente enorme. A Mãe, o Pai e Tiantônia davam conta de que era a mesma coisa que se cada um deles tivesse morrido por metade. E mais para repassar o coração, de se ver quando a Mãe desfiava o terço, mas em vez das ave-marias podendo só gemer aquilo de – "Menina grande... Menina grande..." – com toda ferocidade. E o Pai alisava com as mãos o tamboretinho em que Nhinhinha se sentava tanto, e em que ele mesmo se sentar não podia, que com o peso de seu corpo de homem o tamboretinho se quebrava.

Agora, precisavam de mandar um recado, ao arraial, para fazerem o caixão e aprontarem o enterro, com acompanhantes de virgens e anjos. Aí, Tiantônia tomou coragem, carecia de contar: que, naquele dia, do arco-íris da chuva, do passarinho, Nhinhinha tinha falado despropositado de satino, por isso com ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites de verdes brilhantes... A agouraria! Agora, era para se encomendar o caixãozinho assim, sua vontade?

O Pai, em bruscas lágrimas, esbravejou: que não! Ah, que, se consentisse nisso, era como tomar culpa, estar ajudando ainda Nhinhinha a morrer...

A Mãe queria, ela começou a discutir com o Pai. Mas, no mais choro, se serenou – o sorriso tão bom, tão grande – suspensão num pensamento: que não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser! – pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha.

In Primeiras Estórias, João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira

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segunda-feira, 19 de julho de 2010



30 anos sem Vinicius de Moraes

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.

Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.

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sábado, 17 de julho de 2010



EU EM DRUMMOND

Leio Drummond
com todo força
leio Drummond
com todo amor.

Leio Drummond
com rosas
no pensamento
e espada de poesia
que só eu vejo
em minha mãos.

Leio Drummond
e me alegro
leio Drummond
e me multiplico
me invento.

Leio Drummond
e crio outros,
outros infinitempos.

Sérvio Túlio de Mascarenhas Lima

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quarta-feira, 14 de julho de 2010



A seguir, o relato de um sobrevivente:

"Não conseguia mover meus membros. Por sorte ainda tinha sensibilidade e podia perceber que meu rosto era iluminado intensamente, como os raios solares, com sua radiação me fornecendo calor. Tentei abrir os olhos, mas fui forçado a mantê-los semicerrados, a luz cegava. Deveria ser o Sol, só podia ser o Sol.

O resto de meu corpo doía, mal tinha forças para me retorcer numa vã tentativa de disfarçar o incômodo para minha própria dignidade. Sentia frio, apesar de crer que o Sol estava sobre mim.

Um súbito pânico se apoderou de mim - onde eu estava? Teriam me roubado? Encarei a cegueira do abrir os olhos e vi o que me iluminava: era um sol. Um sol artificial que, ao me soerguer penosamente e girar o pescoço para a direita e para a esquerda, eu via repetidas vezes, numa fileira de luzes alimentadas por elétrons. Aquele era o meu céu de todos os anos, o sol das ruas, dos seres rastejantes e dos noctívagos. Malditos postes.

Levantei-me e tentei me lembrar do que ocorrera ao olhar os hematomas. Briga por peças para um braço biônico! Como fora um boçal ao enfrentar um bando de punks em clara desvantagem numérica, apesar de possuir um braço de força sobre-humana quase finalizado. Tudo que eu queria era o conjunto de peças para terminar o projeto de minha mãe, Eve, feito em mim mesmo. Creio que fiquei horas estirado no chão e nenhuma criatura para prezar pela "ordem social" apareceu, como nosso presidente assume de forma tão fremente que é feito.

Ordem social o inferno! Mundo perdido, de loucos egocêntricos e nenhuma noção de caridade sem fins igualmente egoístas. Se pudessem me eliminar, certamente já estaria morto. Mas que podia fazer eu, um mero número perante o governo e o mundo, para alterar todo um sistema? Eve diria: "Estude História."

Desde criança, eu a observava montar e desmontar autômatos, relógios, computadores, uma infinidade de coisas. Aquilo tudo me fascinava e eu desejava fazer parte, então pedi a minha mãe que me permitisse conhecer seu ofício e praticá-lo. Eve me trouxe um pequeno relógio que girava normalmente e me ordenou: "Faça com que os ponteiros parem de girar sem danificar uma peça sequer."

Eu não consegui. Manipulei aquela máquina e, embora eu já a conhecesse de vista, não sabia como desmontá-la, era mais complexa que o exterior poderia revelar. Por um instante, pensei em bater com o relógio na mesa, mas lembrei que não poderia causar dano a nenhuma peça. Temendo fazer qualquer asneira, estagnei em um silêncio constrangido, rapidamente notado por Eve.

"Não sabe como, não é?" Assenti abaixando a cabeça, mas ela, delicadamente, virou meu rosto para si, erguendo-o e me disse: "Para se desmontar algo, precisamos conhecer como foi montado, filho. Saiba como as coisas foram feitas para que possa desfazê-las, é bem simples."

Uma das poucas memórias que ainda tenho é esta e por isso digo que Eve, se estivesse viva, me diria para estudar História. O horrendo sistema de agora é resultado de uma sequência de eventos, conduzidos pelos Regentes, através da História. Toda tentativa de mudança através da violência nunca funciona, pegue o caso de revoluções. Uma minoria perceptiva e sagaz agita a população, que consegue tirar os tiranos do poder, mas aquela minoria intelectualizada toma o poder e ela mesma se torna tirana. Os laços de poder são restabelecidos, ou seja, pela violência e quebra do sistema sem atingir suas origens, não existe mudança real. Se eu soubesse como que o humano chegou a este ponto no qual nossa sociedade está agora, usaria os mesmos ideais para o propósito reverso, mas do que adianta se os registros históricos são todos falsos?

A História foi reescrita sob pontos de vista particulares, não temos depoimentos de pessoas na época que ocorreram. Muito foi queimado e escondido pelo governo. Quando temos, existem opiniões díspares e nossos Regentes escolhem apenas uma para nos ensinar na escola.

Não se pode confiar em nada... E eu continuo sendo um número, que vai morrer como qualquer um sem fazer merda alguma para mudar esse sistema.”

Beatriz B.,16 anos, www.blindance.blogspot.com.

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domingo, 11 de julho de 2010



30 anos sem Vinicius de Moraes

Esta semana (09) completou-se 30 anos da morte de Vinicius de Moraes dramaturgo, jornalista, poeta e letrista brasileiro. Em homenagem a este grande homem o Gerhard Online com seu Boteco Literário apresenta diversos sonetos, poemas e trabalhos de Vinicius ao longo de sua vida.

Hoje começamos com o memorável Soneto da Fidelidade:

SONETO DA FIDELIDADE, Vinícius de Morais

De tudo, meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Antologia Poética)

Vinicius de Moraes interpretando o Soneto da Fidelidade: http://www.youtube.com/watch?v=PMZ10B82ZZg

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Brasil! Mostra tua cara

Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil, realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior eles maximizam os positivos, enquanto no Brasil se maximizam os negativos. Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque não há nada automatizado.
Só existe uma companhia telefônica e pasmem!: Se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.

Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o
sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos antes de comer. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com mesma mão suja entregam o pão ou a carne.

Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas
enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.

Na Europa, não-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador.

Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e
qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir pra lá dar aulas de ‘Como conquistar o Cliente’.

Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos emotivos..

Vocês têm uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da língua Portuguesa. Os brasileiros são vitimas de vários crimes contra a pátria, crenças, cultura, língua, etc… Os brasileiros mais esclarecidos sabem que temos muitas razões para resgatar suas raízes culturais.
Os dados são da Antropos Consulting:

1. O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e de outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.

2. O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.

3. Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.

4. Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.

5.. Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.

6. No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.

7. Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.

8. O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo, com 650 mil novas habilitações a cada mês.

9.Telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas..

10. Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO-9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México, são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.

11. O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos.
Por que vocês têm esse vício de só falar mal do Brasil?

1. Por que não se orgulham em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?

2. Que têm o mais moderno sistema bancário do planeta?

3. Que suas agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?
4. Por que não falam que são o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedicam considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?

5. Por que não dizem que são hoje a terceira maior democracia do mundo?

6. Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?

7. Por que não se lembram que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem?

Por que não se orgulham de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando.

É! O Brasil é um país abençoado de fato.
Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos.

Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques.
Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente.
Bendita seja, querida pátria chamada Brasil.

Deborah Clansen, holandesa, pedagoga empresarial.

Fonte: whymay.tumblr.com

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